Historicamente, o bordado se desenvolveu como um fazer transgeracional, do gênero feminino e não profissional (doméstico), considerado, socialmente, em sociedades patriarcais, como um fazer destituído de elaboração intelectual e, por conseguinte, todas as artes manuais femininas (costurar, cerzir, bordar) eram consideradas “artes menores”. E dentro do espaço social e econômico, eram invisíveis.

O Bordado Húngaro, mais especificamente o bordado Kalocsai, originário da região da Kalocsa, é considerado Patrimônio Cultural Imaterial da Hungria desde 2009. Kalocsa é uma cidade que fica a 110 km da capital (Budapeste), fica próxima do rio Danúbio e próxima, também, da Croácia e da Sérvia. Existe há mais de mil anos.

Antigamente, nas aldeias, as mulheres burguesas ensinavam às camponesas o exímio bordado que faziam para que elas pudessem ter quem bordasse para elas. Com isso, as camponesas iam aprendendo. Elas não podiam mandar imprimir desenhos em suas roupas porque para elas, era muito caro pagar por uma impressão. E o que elas faziam? Elas copiavam os desenhos que estavam na última moda e eram ditados pelas burguesas e faziam nas próprias roupas. Ficavam um pouco diferentes, mas elas conseguiam manter a essência do risco. 

Ainda hoje, as mulheres de Kalocsa desenham, pintam e bordam flores multi coloridas (representando seus campos), pimentão e páprica vermelha (muito utilizada na culinária húngara, composta por pratos bem picantes), símbolos do folclore húngaro, preservando esse patrimônio.

Cada bordado tem um padrão distinto que o diferencia da região onde é bordado. Então, quando as flores são bordadas em um vestido e vistas pelos húngaros, eles já sabem de onde aquela pessoa é, pelo bordado feito em sua roupa. As roupas femininas húngaras refletiam sua própria vida. Uma mulher feliz e jovem, por exemplo, bordava suas roupas com cores vivas como vermelho, laranja e amarelo. Já, uma viúva, usava roupas pretas com bordados violetas, verdes e azuis. Almofadas e toalhas de mesa eram frequentemente bordadas. Mas o bordado também foi usado como uma maneira de mostrar orgulho regional. As mulheres também bordavam em lenços, blusas, aventais e roupas masculinas.

Alguns desses itens lindamente bordados eram feitos para o dote de uma jovem, que consistia em centenas de itens e era motivo de orgulho.

Hoje, poucos húngaros vestem trajes folclóricos e bordados completos, mas a beleza deste bordado encantou e reverbera seu encanto em todos os cantos do mundo. Referência: KOSA, K.C.; TEIXEIRA, D.P.; PEREIRA, C.M. O bordado Kalocsai: entre significados e ressignificações. Revista Mosaico, v.11, n.1, p. 10-17, 2020.